A liderança feminina e o desenvolvimento do quilombo de Itamatatiua associado

quinta-feira, 18 Outubro, 2018 - 16:00
Ascom Sead

Em um quilombo maranhense as mulheres vão para a roça, cuidam dos filhos, zelam da casa, produzem cerâmica e reivindicam por seus direitos. Além disso, o quilombo usufrui de um comando feminino que não foi tomado à força, mas pelo reconhecimento da mulher, da influência que exerce e do seu poder de liderança.

Em Alcântara (MA), a artesã Neide de Jesus, 69 anos, é líder do quilombo de Itamatatiua que possui mais de 310 anos de existência e atualmente cerca de 170 famílias vivem no local.

Uma antiga fazenda da Ordem do Carmo foi doada a um casal de negros escravizados que doaram as terras à Santa Teresa de Jesus, que foi a dona simbólica do espaço territorial. Assim, a grande maioria da comunidade que tem entre 60 e 70 anos, possui o sobrenome 'De Jesus', a exemplo de sua liderança, Neide de Jesus.

A origem do quilombo se dá quando a Ordem do Carmo deixou a fazenda, expulsa em virtude da situação política da época, ficando a terra para os negros escravos que povoavam o local. Surge então o Quilombo de Itamatatiua, cujo significado vem da união de três palavras indígenas: Ita (terra), Mata (peixe) e Tiua (rio).

Dona Neide, a líder, nasceu em 2 de novembro na antiga fazenda carmelitana de Alcântara, ela conta que antes de terem a posse da terra todos viviam de forma instável. “Nós não tínhamos apoio e isso nos tornava inseguros, porque não havia nenhum documento em mãos que nos assegurasse”, relembra.

Quando a fazenda passou a ser de propriedade dos negros tiveram que enfrentar vários obstáculos, pois não haviam casas de alvenaria, somente casas de taipa. “A nossa comunidade também não tinha estrada para ir para casa”, complementa.

Após o falecimento de seu Eurico de Jesus, pai de Dona Neide, a artesã tornou-se líder do quilombo de Itamatatiua, e está à frente da comunidade há três décadas.

Para Dona Neide, no início, assumir a liderança foi um desafio, pois enfrentou obstáculos. “Eu passei um pouco de dificuldade quando fui escolhida para tomar a frente do quilombo, pois eu não tinha nenhum tipo de conhecimento”. Assim como Dona Neide, parte da população do quilombo, principalmente os idosos, não tiveram a oportunidade de estudar.

Apesar dos percalços, Dona Neide conseguiu superar as diferenças. Mesmo sem saber ler e escrever, obteve conhecimento próprio, experiência que a vida lhe proporcionou, e decidiu empenhar-se pelo quilombo e lutar por aquilo que acreditava. Dona Neide uniu-se com as demais artesãs da comunidade e criaram a Associação de Mulheres de Itamatatiua. Ela reconhece a força e a união das mulheres. “O desenvolvimento da nossa comunidade foi possível depois da criação da nossa associação”, destaca.

No quilombo as mulheres reivindicam a participação dos governos estaduais e municipais. Itamatatiua é uma sociedade matriarcal, a grande maioria do seu efetivo no que diz respeito à liderança, à luta e busca por direitos, benfeitorias, manutenção de sua cultura tradicional, assim como dentro de casa, vem das mulheres da comunidade.

Todos os que vivem na comunidade reconhecem que foi pelo empenho das mulheres que a comunidade de Itamatatiua teve um desenvolvimento significativo, o qual trouxe grande satisfação para a líder do quilombo. Dona Neide revela as benfeitorias alcançadas na comunidade pelas artesãs. “Através da associação nós conquistamos muitos benefícios, como por exemplo, a energia elétrica, a pousada, o centro de produção e o nosso poço artesiano, o poço da comunidade. ”

As artesãs da associação produzem o principal produto de Itamatatiua, a cerâmica. É por meio dessa produção que a comunidade vem sendo conhecida nacional e internacionalmente, com a fabricação de um artesanato feito de maneira tradicional. Produzem também farinha de mandioca, arroz, feijão, milho e batata. A Associação de Itamatatiua é de mulheres que têm no artesanato e na cerâmica um importante elemento de sua identidade cultural e fonte de renda, e por meio deles, elas empoderam outras mulheres e valorizam seu patrimônio cultural.

A cerâmica que inicialmente era produzida apenas em casa pelas mulheres, hoje é levada para a sede do quilombo, na cidade de Alcântara, além de cidades vizinhas e para a capital São Luís (MA). O artesanato de Itamatatiua também é levado para outros países por meio dos turistas internacionais que vão à comunidade conhecer a história do quilombo e suas tradições.

Para Dona Neide, atualmente, a maior dificuldade que enfrenta no quilombo se resume à manutenção das tradições. “A nossa maior luta é a falta de apoio para manter as nossas tradições, que pertencem aos nossos ancestrais e que devem ser passadas às outras gerações”. A herança dessa comunidade é com a atuação efetiva das mulheres locais na produção do artesanato tradicional, dos festejos religiosos, das danças e ritos, partes de uma cultura material e imaterial rica, porém com risco de desaparecer. Possui também lendas e mitos ainda perpetuados pelos moradores locais.

Muito do que se preserva até hoje no quilombo se deve à força de uma mulher guerreira, que assumiu a liderança e que decidiu acreditar em si mesma e, principalmente, nas pessoas a sua volta. Essa liderança não vem do início do quilombo, mas foi assumida décadas atrás e continua através de gerações, tendo em Dona Neide de Jesus um dos baluartes da comunidade, sendo ela não só a líder oficial como simbólica, respeitada por todos, dentro e fora do quilombo.

15 dias pela autonomia das mulheres rurais

Os papéis desempenhados pelas mulheres rurais são tão numerosos quanto suas lutas e vitórias. O que não faltam são histórias de vida inspiradoras. No entanto, ainda não possuem o reconhecimento merecido. Sofrem com o preconceito, com a desigualdade de gênero e com outros problemas que herdaram da vida. Ainda há um longo caminho para o equilíbrio de direitos e oportunidades entre homens e mulheres. A fim de mostrar que equidade de gênero e respeito são valores necessários cotidianamente, a Organização das Nações Unidas (ONU) decretou que 2018 seria o Ano da Mulher Rural.

Pensando nisso, a partir do primeiro dia do mês de outubro, iniciamos, no portal, uma série de matérias que fazem parte da Campanha Regional pela Plena Autonomia das Mulheres Rurais e Indígenas da América Latina e do Caribe - 2018. Serão 15 dias de ativismo em prol das trabalhadoras rurais que, de acordo com o censo demográfico mais recente, são responsáveis pela renda de 42,2% das famílias do campo no Brasil.

Para acessar todas as matérias da campanha, clique aqui.

Gabriela Morais, estagiária sob supervisão da Assessoria de Comunicação
Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário
Contatos: (61) 2020-0120 e imprensa@mda.gov.br

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