Abelhas: essenciais para a produção de alimentos

segunda-feira, 3 Outubro, 2016 - 10:15
Foto: Ascom/ Sead
As abelhas são fundamentais na produção agrícola, principalmente, no cultivo de espécies nativas

No dia 3 de outubro é comemorado o Dia da Abelha. Não se sabe ao certo como surgiu a data, mas a intenção é lembrar a importância que este pequeno inseto possui para o bem estar dos seres humanos. A abelha é a única espécie do planeta capaz de produzir o mel - considerada a primeira substância adocicada utilizada pelo homem na  antiguidade. Atualmente, são conhecidas, no mundo, mais de 20 mil espécies do inseto. No Brasil, são conhecidas mais de duas mil espécies entre nativas e exóticas, que foram introduzidas nos nossos biomas. 

Ao contrário do que se pensa, a maior parte das abelhas não vive em comunidades. A grande maioria delas tem vida solitária, como conta o especialista em abelhas do departamento de Zoologia da Universidade de Brasilia (Unb), professor Antônio José Camilo de Aguiar. “O que acontece: elas vão lá sozinhas fundam um pequeno ninho, a fêmea coleta o pólen e coloca seus ovos. Depois ela fecha esse ninho, sai dele, e morre.” 

De acordo com o professor, uma pequena porcentagem das espécies de abelhas vive ao logo de várias gerações dentro do ninho em contato com os filhos, formando assim uma colônia.  “Ela bota o ovo, espera a larva se transformar em uma abelha. Essa abelha passa a trabalhar para aquela que fundou a colônia”, conta.

Mas as abelhas que vivem em colônia são a minoria. “São as abelhas Apis melífera (abelha-europeia ou africana) e as sem ferrão. Aqui,na América do Sul, são mais de 200 espécies como a irapuá, jatai e a mandaçaí. Elas são espécies sociais que formam colônias e que estocam alimentos”, explica o professor. “Nesse processo de estocagem é que a gente recolhe o mel delas. Abelhas solitárias não estocam mel”, esclarece. 

Polinização

A polinização é o transporte de pólen de uma flor para a outra. É por meio da polinização que as flores são fecundadas, começando o desenvolvimento de frutos e sementes.  Ela pode ser feita pela água, pelo vento e por muitos animais, como borboletas e beija-flores.  Mas o animal mais famoso pela capacidade de polinização - e é de fato o mais eficiente - é a abelha, pois é mais rápida, consegue voar em ziguezague e, após um tempo com a colônia instalada em certo local, consegue saber qual o melhor horário para coletar pólen. Elas observam a flora próxima à colmeia e associam com a intensidade da luz do dia.

As abelhas prestam um serviço ecossistêmico essencial para a biodiversidade, por polinizar não apenas as culturas agrícolas como também plantas silvestres. Estima-se que 35% da produção agrícola global, bem como 85% das plantas selvagens dependam, em algum grau, da polinização. Entre os polinizadores, as abelhas são os mais importantes e mais eficientes agentes.

“As abelhas são responsáveis pela polinização de plantas e são amplamente reconhecidas como as mais importantes para essa função em escala global. Mais de vinte mil espécies de abelhas – pertencentes a várias famílias da ordem Hymenoptera – já foram descritas e um número indefinido ainda são desconhecidos. Só no Brasil já foram identificadas quase três mil espécies de abelhas. 80% delas são encontrados na Floresta Amazônica”, afirma Décio Gazzoni, pesquisador da Embrapa e membro do Conselho Científico da Associação Brasileira de Estudo das Abelhas (A.B.E.L.H.A.) 

De acordo com  a Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), mais de três quartos das culturas alimentares do mundo dependem pelo menos em parte da polinização por insetos e outros animais. Entre US$ 235 bilhões e US$ 577 bilhões do valor da produção alimentar global anual depende de contribuições diretas dos polinizadores.

Agricultura

Você gosta de abobrinha, de melancia e de maracujá? Se a resposta é sim, então você gosta do que as abelhas fazem. Esses e muitos outros vegetais não existiriam ou seriam muito diferentes sem a polinização feita por esses insetos. As berinjelas, por exemplo, seriam menores que maçãs. “Se você pensar que as abelhas são responsáveis por 90% da reprodução das plantas com flores, se você tem um desequilíbrio na população de abelhas, você tem um desequilíbrio das plantas”, destaca o professor Antônio José Camilo de Aguiar.

Segundo o professor, as abelhas são fundamentais na produção agrícola, principalmente, no cultivo de espécies nativas, como jabuticaba, mangaba, castanha do Pará e caju. “Quando eu falo fundamental, é que não existe produção de alimentos sem as abelhas”, ressalta.  Ele explica que a ausência de abelhas pode provocar um desequilíbrio na produção de alimentos. “Algumas poucas plantas que são menos dependentes das abelhas para reproduzir, vão aumentar a população. Já aquelas que têm uma maior dependência das abelhas, vão começar a desaparecer”, alerta.

Abelhas em risco

Segundo o professor da UnB, dois fenômenos estão provocando a diminuição da população mundial de abelhas.  Um deles são doenças que tem dizimado abelhas Apis melífera por todo mundo. “Elas estão acumulando uma série de doenças como fungos. Estamos sofrendo uma redução das populações, principalmente na Europa e na América do Norte”. Segundo ele, no Brasil, essas doenças ainda não estão muito distribuídas. “Ainda não temos colapso da colônia, que é quando abelha sai e não volta mais pro ninho e você tem a perda completa da colônia”, explica. 

Outro fator que tem provocado o desaparecimento das abelhas, neste caso das espécies nativas, é o efeito da agricultura muito intensiva, que utiliza grande quantidade de agrotóxicos. “A partir do momento que você substitui o cerrado por grandes áreas de cultivo de soja, por exemplo, não tem como. As abelhas vão desaparecer”, frisou.  “Porque se passa a usar grandes quantidades de veneno que vão contaminar não só aquela área, mas também áreas vizinhas e, assim, vamos perder”, destaca o professor falando da importância a agricultura familiar e da agroecologia para a preservação das abelhas.

As abelhas são pequenas no tamanho, mas de uma importância gigante para toda a vida na Terra. Sem elas, não perderíamos só o mel e os produtos agrícolas. A produção de animais para consumo sofreria grandes perdas, já que estes animais são herbívoros. A vida selvagem de uma forma geral também sofreria sem elas: a vegetação seria drasticamente reduzida e, assim, a vida em geral.

Para garantir que as abelhas continuem ajudando o homem na produção de alimentos, é importante ficar atento à preservação do meio ambiente. “A gente usa o termo “evitar o desmatamento”, mas o correto é manejar a paisagem”, diz o professor “Quando você tem condições de proteger as nascentes de água e os córregos protegendo as margens dos rios, você tem condições de proteger as abelhas e vários outros insetos”, pondera om professor.

Mel que adoça o mundo

O mel produzido no Brasil é um mel silvestre, retirado de floradas nativas.  A exceção fica para o mel de Santa Catarina que é retirado  das macieiras e para o mel de São Paulo, que  boa parte é produzida com base nas laranjeiras e no eucalipto.  Atrás do Rio Grande do Sul, o Piauí é o segundo maior produtor de mel do Brasil.  Picos se destaca com o o maior produtor de mel no estado.  No ano passado, o município produziu 950 toneladas de mel e faturou mais de R$ 10 milhões com exportação.  Agricultores familiares que se dedicam à apicultura contribuíram para esse sucesso.

A Central de Cooperativas Apícolas do Semi-Árido Brasileiro (Casa Apis) contribui com esses dados. Composta por 5 cooperativas que beneficiam 850  famílias de apicultores do Piauí e Ceará, ela  é  uma agroindústria que  tem  que tem capacidade de processar duas mil toneladas  mel por ano, o que corresponde  50% do mel produzido  no Piauí.  “É um das agroindústrias, desse porte, mais modernas da América Latina e tem a condição de atender a grande maioria dos apicultores da região, que são agricultores familiares”, conta o presidente da Casa Apis, Antônio Leopoldino Dantas Filho.

Desde a criação das abelhas até o processamento do mel, é a família do apicultor que  está envolvida no processo. “Hoje nós dominamos toda a cadeia com as pessoas de casa mesmo, sem ninguém de fora”, conta Antônio Leopoldino. “São os próprios produtores, os filhos deles, o pessoal da família mesmo que cuida e vai fazendo todo trabalho desde o apiário até o mel que é vendido hoje para os Estados Unidos e Europa”, destaca.

O apoio do Governo Federal foi fator determinante para que isso acontecesse. “97%  dos nossos associados acessam as linhas de crédito do Pronaf nas linhas A, B e C”, explica. “Eles também recebem capacitação e assistência técnica, com conhecimentos desde os princípios contábeis até a exportação”, acrescenta o presidente da Casa Apis.

Visibilidade

A organização, o esforço e o apoio de politicas colocou a Casa Apis como uma marca conhecida do Brasil e exterior.  Isso foi possível graças ao Selo de Identificação da Participação da Agricultura familiar (Sipaf). Desde 2007, a Casa Apis utiliza a certificação que é concedida pela Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário. O Sipaf dá visibilidade às empresas e aos empreendimentos que promovem a inclusão econômica e social dos agricultores, gerando empregos e renda no campo. 

O mel da Casa Apis é encontrado em grandes redes de Supermercados de todo o país e exportado para os Estados Unidos e Europa. Antônio Leopoldino comemora o sucesso do protudo 100% piauiense.  “Isso é uma coisa que não tinha acontecido com a gente ainda.  Não tínhamos nem noção de que íamos chegar onde nós chegamos.  Neste cinco anos de estiagem, o empreendimento conseguiu  crescer um margem de 20% ao ano em um momento que há uma crise econômica mundial”, conta. Em 2015 Casa Apis exportou  740 toneladas de mel. Neste ano, até o momento já foram exportados 925 toneladas do produto. 

Curiosidades:

* Uma abelha silvestre visita 10 flores por minuto em busca do pólen e do néctar;

* Ela faz, em média,  50 voos diários, pousando em 40 mil flores;

* Uma colmeia abriga cerca de 50 mil abelhas. Tem uma rainha, alguns zangões e milhares de operárias; 
* Quando nascem duas rainhas ao mesmo tempo, elas lutam até que uma morra;
* A abelha rainha vive até dois anos, enquanto as operárias não duram mais que um mês e meio;
* Apenas as abelhas fêmeas trabalham. A única missão dos machos é fecundar a rainha. Depois de cumprirem essa missão, eles não são mais aceitos na colmeia. Ficam de fora até morrer de fome;
* As abelhas-rainhas põem três mil ovos num único dia. Uma abelha carrega o peso equivalente a 300 vezes o seu;
* Como uma colmeia abriga até 50 mil abelhas e cada abelha produz 5 gramas de mel por ano, a colmeia pode produzir, anualmente, 250 quilos de mel.

Adolfo Brito 
Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário
Assessoria de Comunicação
Contatos: (61) 2030-0123 e imprensa@mda.gov.br

 

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